Forças para Perdoar

Você conseguiria amar tanto assim?

Por Bob Considine

Esta é a história do amor de uma mulher por seu marido. Quer ele merecesse esse amor – e por que agia daquela forma – ou não eu não posso responder. Não vou escrever a respeito de Karl Taylor; esta história é sobre a sua esposa.

Tudo começou no início de 1950 no pequeno apartamento da família Taylor em Waltham, Massachusetts. Edith Taylor estava convencida de que era a “mulher mais sortuda do bairro”. Ela e Karl estavam casados há 23 anos, e seu coração ainda batia mais rápido quando ele chegava.

Claro, eles tiveram momentos difíceis no decorrer desses anos, quando por exemplo Karl entrou em depressão, não parava nos empregos. Mas ela o ajudara nos momentos ruins e o amava ainda mais pelo fato dele precisar dela.

Karl aparentava estar apaixonado pela esposa. Sem dúvida ele parecia até depender dela, como se não quisesse afastar-se dela por muito tempo. Se ele tinha que viajar a serviço – trabalhava num depósito do governo – ele escrevia uma longa carta a Edith todas as noites e lhe mandava vários cartões postais durante o dia. Enviava-lhe lembrancinhas de todos os lugares para onde ia.

Muitas vezes à noite eles ficavam acordados até tarde no seu apartamento conversando sobre a casa que iam ter um dia … “quando conseguirmos dar a entrada…”

Em fevereiro de 1950, o governo mandou Karl para Okinawa para trabalhar por uns meses num novo depósito lá.
Dessa vez não chegaram lembrancinhas. Edith entendia. Ele estava guardando cada centavo no banco para a casa que iam comprar.

Os meses solitários se arrastaram e para Edith parecia que o serviço lá estava demorando cada vez mais. Sempre que ela achava que ele ia voltar ele escrevia dizendo que precisava ficar “mais três semanas”. “Mais um mês”. “Só mais dois meses”.

A essa altura ele estava longe de casa há um ano, e de repente Edith teve uma inspiração. Por que não comprar a casa antes de Karl voltar? Seria uma surpresa! Ela estava trabalhando numa fábrica em Waltham, e depositando todo o seu salário no banco. Então deu entrada numa casinha aconchegante com muitas árvores e uma linda vista.
Agora os dias voavam, porque ela estava ocupada preparando a sua maravilhosa surpresa. Em mais dois meses ela ganhou o suficiente para colocar carpete em um dos quartos. No mês seguinte cuidou da calafetação. Estava se endividando, sabia, mas com o que Karl já devia ter economizado…

Ela trabalhava febrilmente, quase desesperadamente, porque agora havia algo sobre o qual ela não queria pensar.
As cartas de Karl estavam sumindo aos poucos. Não mandar lembranças ela entendia, mas não gastar uns centavos numa carta?

Depois de semanas de silêncio veio uma carta:
“Querida Edith, gostaria que houvesse uma maneira mais gentil de informar-lhe que não estamos mais casados…”
Edith foi até o sofá e sentou-se. Ele mandara um pedido de divórcio para o México. Chegara no correio. A mulher morava em Okinawa. Era japonesa, e chamava-se Aiko, era uma camareira que cuidava do alojamento onde ele ficava.
Aiko tinha 19 anos de idade, Edith 48.

Se eu estivesse inventando esta história, a esposa rejeitada primeiro ficaria em choque, depois furiosa. Ela enfrentaria aquela petição de divórcio; odiaria o marido e a outra mulher e ia querer se vingar dele por ter destruído sua vida.

Mas estou apenas contando o que aconteceu. Edith Taylor não odiava Karl. Talvez o amara por tanto tempo que não conseguia deixar de amá-lo.

Ela conseguia imaginar muito bem a situação. Uma jovem pobre. Um homem solitário que, como Edith bem sabia, às vezes bebia mais do que devia. Contato constante. Mas mesmo assim (aqui Edith esforçou-se heroicamente para orgulhar-se de seu marido) – mesmo assim, Karl não tinha feito a coisa fácil e vergonhosa. Ele escolhera o caminho duro do divórcio, em vez de aproveitar-se de uma jovem empregada.

A única coisa que Edith não conseguia acreditar é que ele não a amava mais. Ela forçou-se a acreditar que ele amava Aiko também. Mas a diferença de idade, de cultura – não podia ser o tipo de amor que ela e Karl tinham! Um dia os dois descobririam isso; um dia, de alguma forma, Karl voltaria para casa.

Edith agora vivia com base nesse pensamento. Escreveu a Karl pedindo-lhe para mantê-la informada das coisinhas rotineiras de sua vida. Contou-lhe sobre a casinha nova, a paisagem e a boa calafetação. Karl nem sabia disso.
Um dia ele escreveu para dizer que Aiko estava grávida. Marie nasceu em 1951, e depois em 1953 Helen nasceu. Edith enviou presentes para as menininhas. Ainda escrevia para Karl e ele respondia; eram cartas carinhosas e cheias de detalhes de duas pessoas que se conheciam muito bem. Tinha nascido o primeiro dente de Helen. Aiko estava falando inglês melhor. Karl tinha emagrecido.

Agora Edith vivia em Okinawa. Em Waltham tudo era mecânico, pois sua vida era ir da fábrica para o apartamento, mas sempre pensando em Karl, achando que um dia ele voltaria…

Veio então a terrível carta: Karl estava morrendo de câncer nos pulmões. Suas últimas cartas revelavam muito temor. Não por si próprio, mas por Aiko, e principalmente por suas duas menininhas. Ele economizara dinheiro para mandá-las estudar nos Estados Unidos, mas estava gastando tudo em tratamento médico. O que ia acontecer com elas?

Edith percebeu que seu último presente para Karl poderia ser paz de espírito nas suas últimas semanas de vida. Escreveu-lhe dizendo que se Aiko quisesse, ela pegaria Marie e Helen e as levaria para Waltham.

Muitos meses se passaram depois da morte de Karl, e Aiko não abria mão das meninas. Elas eram tudo o que ela tinha. Mas o que ela poderia oferecer-lhes a não ser uma vida semelhante à que tivera? Uma vida de pobreza, de servidão e angústia. Em novembro de 1956 mandou as meninas para a sua “querida tia Edith”.

Edith sabia que seria duro, aos 54 anos de idade ser mãe para uma menininha de três e outra de cinco anos. Ela não sabia que no pouco tempo que se passara após a morte de Karl elas esqueceriam-se do pouco inglês que já sabiam falar.
Mas Marie e Helen aprenderam rápido. O temor desvaneceu-se de seus olhos e seus rostos ficaram rechonchudinhos. Edith pela primeira vez em seis anos saía do serviço correndo para voltar para casa. Até mesmo a hora das refeições eram agradáveis novamente!

O triste era quando chegavam cartas de Aiko. “Tia, conte-me o que as meninas fazem agora. Marie ou Helen choram?” Com o pouquinho de inglês que sabia Aiko revelava uma solidão que Edith conhecia muito bem.

Dinheiro era um outro problema. Edith contratou uma senhora para cuidar das meninas enquanto ela trabalhava. Tendo que ser mãe e ganha-pão ela emagreceu e começou a ficar cansada. Em fevereiro adoeceu, mas continuou trabalhando, com medo de perder a féria do dia. Um dia na fábrica ela desmaiou. Ficou internada no hospital por duas semanas com pneumonia.
Ali no hospital teve que encarar o fato de que ficaria velha antes das meninas estarem crescidas. Pensou que tivesse feito tudo o que o amor que sentia por Karl lhe pedira, mas agora sabia que faltava mais uma coisa. Precisava levar a verdadeira mãe das meninas para os Estados Unidos, para o seu lar.

Tomou a decisão, mas agir foi outra coisa. Aiko ainda era cidadã japonesa, e a cota de imigração tinha uma lista que ia demorar anos para ela receber a cidadania.

Foi então que Edith Taylor escreveu para mim. Relatei a situação na minha coluna no jornal. Foram feitas petições e um projeto de lei especial foi votado sem demora no Congresso. Em agosto de 1957 Aiko Taylor pôde entrar no país.
Por um momento, quando o avião estava aterrissando no aeroporto internacional de Nova Iorque, Edith ficou com medo. E se ela odiasse aquela mulher que lhe tirara Karl?

A última pessoa a desembarcar foi uma moça tão magrinha e pequena que logo que a viu Edith pensou que fosse uma criança. Ela não desceu a escada; ficou ali parada, segurando-se ao corrimão, e Edith sabia que se ela própria sentira medo, Aiko provavelmente estava quase em pânico.

Chamou a moça pelo nome e ela desceu correndo para os braços de Edith. Naquele breve momento, abraçando-se, Edith teve um pensamento fora do comum. Ela fez uma prece, com os olhos fechados. Ajude-me a amar esta garota como se ela fosse parte de Karl voltando para casa. Eu pedi a Deus para que ele voltasse. Agora ele voltou, na forma de suas duas filhinhas e desta doce garota que ele amou. Deus, ajude-me a entender isso.

Hoje Edith, Aiko Taylor e as duas menininhas vivem juntas no apartamento em Waltham. Marie é a melhor aluna da segunda série; a professora de Helen, que está no prezinho a adora. E Aiko está estudando enfermagem. Um dia ela e Edith gostariam de ter a sua própria casa. À noite ficam conversando e fazendo planos. Agora Edith Taylor sabe que ela é “a mulher mais sortuda no bairro”.

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