Como Escutar Para que os Adolescentes Falem

À primeira vista, todo o processo de escutar parece bastante simples. Afinal de contas, é a parte da comunicação em que aprendemos primeiro e a que usamos mais. (Escutar ocupa 45% da nossa comunicação, falar 30%, ler 16%, e escrever 9%.) Entretanto, não escutamos muito bem. Nós nos pegamos dizendo: “Como é que é mesmo?” “Qual é mesmo o seu nome?” “Você disse que era para virar à esquerda ou à direita?”

Um estudo sobre escutar, revela que depois de 10 minutos de um relatório oral, o ouvinte ouviu, entendeu e assimilou metade do que foi dito. Dentro de 48 horas, a capacidade de assimilação cai mais 50%, o que dá uma compreensão final de 25%. Ainda bem que escutar é uma habilidade que podemos melhorar.
Vamos nos concentrar em como fazer ajustes que produzirão melhoras significativas.

“O meu filho adolescente não fala comigo!” Às vezes os adolescentes falam horas com os seus amigos, mas mal falam com os pais. Os adolescentes nem sempre sabem explicar o que estão pensando ou sentindo. Às vezes têm medo de que se tentarem se expressar, vai sair tudo errado. Eles são extremamente sensiveis quanto a serem criticados ou que alguém ria deles. O fato de não falarem torna-se então um padrão defensivo criado para evitar confrontos e constrangimentos.
Nós podemos ser em parte a causa do problema. Eu compilei uma lista das suas queixas mais comuns numa pesquisa que fizemos a mais de 800 adolescentes. Segundo eles, os adultos geralmente:

  • tiram conclusões precipitadas
  • ficam zangados quando o adolescente não cede imediatamente e faz o que eles querem
  • interrompem
  • dão a impressão de que estão ocupados demais para serem interrompidos
  • falam demais sem nos darem uma chance de falar
  • ficam preocupados com os nossos pensamentos e sentimentos
  • nunca fazem perguntas
  • parece que nunca querem saber o que nós pensamos
  • não compreendem como nós nos sentimos

Talvez você ache interessante pedir ao seu filho adolescente para ser bem franco e avaliá-lo com base nessas queixas, fazendo uma marquinha nas que se aplicam a você. Tente não ficar na defensiva, nem contradizer o que o adolescente diz, apenas escute.

Escutar versus ouvir

Um adolescente disse: “Os meus pais disseram para quando eu tiver problemas ir falar com eles, mas quando faço isso eles estão sempre ocupados ou não ouvem direito e continuam com o que estão fazendo, como por exemplo fazendo a barba ou a lista de compras. Se um amigo ou amiga viesse falar com eles, eles parariam, seriam educados e escutariam.”
Estes comentários assinalam uma diferença importante entre escutar e ouvir. Imagine como ajudaria o seu relacionamento com o seu adolescente se você escutasse.

As habilidades de escutar ACA

Eis o que eu chamo de modelo ACA para se especializar em escutar: atentar, compreender e avaliar.

Em primeiro lugar, atentar (prestar atenção) é nos certificarmos de que estamos entendendo a mensagem que o nosso adolescente está dando. Precisamos de:

  • olhar calmamente nos olhos do adolescente (sem encarar)
  • ouvir as palavras que estão sendo ditas
  • prestar atenção às expressões do corpo, tais como olhos tristes, mãos nervosas, lábios tensos
  • eliminar distrações sempre que possível (isto é, baixar o volume da TV ou fechar a porta)
  • perceber o tom de voz

Em segundo lugar, ao compreender você obtém o significado da mensagem. É normal interpretarmos mensagens segundo a nossa experiência e o nosso referencial, mas isso é prejudicial porque as nossas experiências são provavelmente muito diferentes das dos nossos adolescentes. Para mim, fazer dever de casa significa estudar para uma prova, mas quando perguntei a Judson se ele tinha deveres de casa, ele respondeu que não, embora tivesse 3 provas no dia seguinte – porque para Jud, estudar para uma prova não é a mesma coisa que fazer os deveres de casa.
Para ver se entendemos o que os nossos adolescentes querem dizer exatamente, podemos parafrasear o que os ouvimos dizer (“Então, o que você quer dizer é ____. Certo?”)
Em terceiro lugar, avaliar é o estágio onde nós mentalmente refletimos sobre a informação que recebemos e decidimos como reagir a ela. Por exemplo:

  • pedir mais informação
  • continuar em silêncio
  • expressar os nossos sentimentos
  • dizer o que pensamos
  • escolher as palavras
  • selecionar o tom de voz

Precisamos nos perguntar: “Qual das várias opções que tenho para reagir ao meu adolescente, gerará uma comunicação mais sincera e eficaz?”
As habilidades ACA geram reações positivas porque incentivam o adolescente a falar mais conosco.
Negativo: Você tirou nota baixa outra vez na prova de hoje?
Positivo: Como correram as coisas hoje na escola?
Negativo: Você está reclamando? Quando eu era novo…
Positivo: Conte-me mais.
Negativo: Você está doido.
Positivo: Eu nunca tinha pensando nisso.
Negativo: Você está exagerando.
Positivo: Parece mesmo importante para você.
Negativo: Isso passa.
Positivo: Você deve ter ficado frustrado.

Os ouvintes eficazes fazem do modelo ACA um hábito. É divertido falar com eles e é um prazer estar na sua companhia. Mesmo que eles não saibam se expressar muito bem, sabem como revelar o que há de melhor na pessoa que está falando com eles. Eu gosto da maneira como alguém uma vez descreveu este tipo de escutar:

Ele falava pouco e sem eloqüência
E era lento para pensar.
Mas era a alegria de todos os seus amigos;
Você tinha que ouvi-lo escutar.

Admitir os nossos erros não só para nós mesmos, mas também para os nossos adolescentes, pode derrubar barreiras que impedem que escutem. Por exemplo, podemos dizer para os nossos adolescentes: “Antes eu não prestava atenção ao que você dizia. Sinto muito. Você me perdoa? Quero melhorar muito nesse aspecto. Se houver ocasiões em que você achar que eu não estou escutando, por favor me diga. Eu não vou ficar zangado. Realmente quero saber.” Mas os pais só podem ir até certo ponto. Os adolescentes também têm que assumir responsabilidade.

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